Entrevista com Pena Schmidt

O artista, o público e tudo que fica entre deles

Curador do Porto Dragão Sessions, Pena Schmidt fala do cenário complexo da música - de ontem e de hoje

O produtor Pena Schmidt: "Apresentações são um eixo estável para investir e fomentar"
00:00 · 29.01.2018

Pena Schmidt começou na música no fim dos anos 1960. Apesar de não levar muito jeito como instrumentista, tinha ouvido para a coisa e se capacitou tecnicamente, para transitar com desenvoltura por estúdios e mesas de som, por trás das cortinas. Acontece que Pena também tinha boas ideias e foi ocupando espaços que, antes, nem existiam direito.

Dirigiu festivais de música (como o pioneiro Hollywood Rock, de 1975); depois trabalhou para gravadoras como a Warner, para quem ajudou a descobrir nomes como Titãs e Ultraje a Rigor. Nos anos 1990, manteve o próprio selo - o Tinitus. Mais recentemente, dirigiu o Centro Cultural São Paulo, da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT). Pena Schmidt é um veterano, com a capacidade rara (para qualquer idade) de estar atento às transformações e argúcia para estabelecer pontes entre as experiências do passado e o corre-corre do presente.

O produtor musical passou por Fortaleza na semana passada, quando integrou uma mesa na série "Conversa de Proa", da aceleradora de projetos artísticos Porto Dragão, do Instituto Dragão do Mar.

Ele é um dos curadores do programa Porto Dragão Sessions, que vai selecionar artistas e bandas para produção de conteúdo musical e posterior distribuição digital desse material. Por e-mail, respondeu questões do Diário do Nordeste e, em repostas precisas, ajuda a compreender onde estamos no meio de tantas transformações no meio musical.

Desde o começo deste século, há uma intensa discussão sobre a crise do modelo de negócios da música. O antigo formato das majors, sobretudo, é objeto dessas análises, que passaram então a figurar até em espaços não especializados (onde a questão é debatida há mais tempo). O cenário atual, contudo, não é aquele projetado por alguns, de que essas gigantes tombariam. O que ainda sustenta os modelo das grandes gravadoras?

O antigo modelo da indústria fonográfica se baseava em privilégios hoje extintos, entre outros o controle sobre o circuito de produção, as fábricas, os estúdios, produtores e músicos; outro fundamento era o controle sobre vida e obra dos artistas através dos meios de remuneração, os direitos sobre interpretação e autoria, mediante adiantamentos que mantinham os artistas em doce cativeiro. A indústria fonográfica se livrou destes privilégios com alguma relutância durante as últimas décadas e trocou privilégios onerosos por outros privilégios bem menos trabalhosos. Hoje a indústria, concentrada e consolidada em três grandes consórcios multinacionais, transformou-se em gestora de uma imensa carteira de direitos sobre obras de alcance quase universal. Vivem de royalties, gerados pelas vendas digitais, que não dão trabalho. Vendas realizadas por terceiros, seja o YouTube, seja o Spotify, do qual são acionistas principais. As majors não investem mais em Música, nem em artistas. Investem comprando a distribuição e licenciamento de grandes artistas que se fazem sozinhos, vindos de outros circuitos de financiamento, como o sertanejo e o funk.

E os artistas independentes, onde ficam nesse cenário?

Os artistas independentes hoje sabem que fazem parte de outro tipo de negócio, estão na Música. Aprendem a buscar parceiros especializados que fornecem serviços de forma bem mais horizontalizada. Estúdios, produtores, ilustradores, distribuidores digitais e físicos, agentes, empresários e promotores de shows, cada vez mais profissionalizados para atender um mercado muito grande e diversificado, mas não de massa, uma classe média de artistas, que circulam no País e no exterior com espetáculos em casas de música e festivais cujo público apoia os seus artistas preferidos. Ainda não é uma realidade que alcance todos, mas muitos já se consolidam neste novo modelo, que depende de cenas locais fortificadas, festivais e casas de música espalhadas pelo estado e pelo País, movidos a contato direto com o público, patrocinadores, subsídios via leis de incentivo e editais.

Você está na ativa há mais de quatro décadas, ocupando diversos papéis e, por meio dele, vendo a realidade a partir de diferentes pontos de vista. As histórias que você conta, sobre o meio da música, são também as de uma série de transformações. Esses ciclos são, em alguma medida, previsíveis? O artista e o seu público podem esperar algum tipo de estabilidade, de calmaria?

Tenho certeza de que uma coisa não mudou, apesar de todas as transformações e rupturas que vimos e que ainda virão. A relação entre artista e seu público, especialmente no espetáculo ao vivo, é a mesma desde o tempo em que tudo começou, a flauta de osso na beira da fogueira. Música é uma atividade coletiva, social, talvez a mais profunda e duradoura, comum em todas as culturas. O artista que tem esta clareza de que trabalha para um público que, literalmente, está presente para apreciar seu trabalho, este é um artista em plena calmaria. Fomos interrompidos por processos industriais que deram a impressão de que música teria se mudado para os sulcos do vinil, para as ondas do rádio, para as imagens cortadas da MTV, toda a música caberia dentro de um pendrive de 1TB. Mas não é isso. Estes são acidentes de percurso num trajeto bem mais longo, ondas que devem ser surfadas, claro.

Como você avalia as políticas públicas do País voltadas à área da música? Elas estão em acordo com o estado atual das coisas (nessas perspectiva de que vivemos em um cenário que está sempre mudando)?

As políticas públicas têm graus variados de atualização, mas notei que no Ceará há uma consistência na ação estadual, notável na direção da Música, buscando fortalecer uma cena local, através dos espaços públicos e de programas de desenvolvimento artístico. Tenho certeza de que existirão artistas se projetando em nível nacional como consequência deste tipo de ação, estruturante e abrangente. Apresentações são um eixo estável para investir e fomentar, bem como atualizar os conceitos de distribuição digital e presença nas mídias sociais.

Que lições, de outros tempos, ainda perduram para os artistas de hoje? O que não podia faltar, há 40 anos, e que ainda hoje é fundamental para quem quer viver da música que faz?

Há uma bela história sobre o que é necessário para se apresentar no Carnegie Hall, como dizia seu diretor: ensaio, ensaio e ensaios. Um pesquisador renomado afirma que não há distinção entre o gênio talentoso e o aluno esforçado após 10 mil horas de prática. Basicamente, não existe sucesso sem um enorme esforço para se polir o diamante, dar acabamento em qualquer estilo, muita dedicação e persistência.

Nos anos 90, você teve um selo e lançou mais de 30 álbuns com ele. Especificamente, no que toca esse material que passou por você, que fim ele levou, no sentido de permanência e de memória? Esses trabalhos foram reeditados? Eles estão disponíveis em formatos digitais?

Quando encerrei as atividades do selo Tinitus, praticamente todos foram devolvidos ou transferidos aos seus autores. Recentemente, alguns têm sido relançados e redistribuídos digitalmente. Outros estão presentes e valorizados em sites de colecionadores. Um LP do Virna Lisi é altamente desejado no Japão!

O que pode ser feito para que a memória da música independente perdure? Essa memória depende, integralmente, daqueles que a produziram? O artista precisa sempre ir atrás de reeditar seus trabalhos anteriores? Qual a importância disso para um artista?

Acredito muito que lançar em vinil é o melhor esforço no sentido de dar perpetuidade às obras. O vinil tem se mostrado o formato museológico perfeito, sem sinais de degradação e com condições bem simples para ser ouvido daqui a alguns séculos. Já o formato digital, por sua própria virtualidade, depende muito da atualização permanente dos acervos e dos equipamentos para ouvir música digitalizada. Já passamos por muitos formatos de mídias e de arquivos e é muito fácil perder arquivos por obsolescência dos formatos. O digital é prático e barato para se lançar novos trabalhos e participar da internet, mas LPs em vinil são altamente prestigiados pelos fãs, além de serem produtos bem rentáveis na lojinha pós show, onde se vende todo o catálogo do artista e seus amigos.

Fique por dentro

Projeto visa canalizar a música cearense

Mantido pelo Instituto Dragão do Mar (IDM), o projeto Porto Dragão iniciou um nova fase no processo de agenciamento da produção cearense, com o Porto Dragão Sessions, direcionado para a área da música. O programa tem por objetivo fomentar a criação de conteúdo em música, para distribuição em plataformas digitais. Para a primeira edição do programa, serão selecionadas dez bandas e artistas - cearenses ou residentes no Estado. As inscrições foram feitas a partir de uma convocatória on-line. A proposta do Porto Dragão Sessions é produzir com os selecionados cinco conteúdos: uma coletânea digital da "nova música cearense", com 20 faixas; um programa para veiculação na TV e na web; dois videoclipes ao vivo de cada selecionado; duas faixas mixadas e masterizadas de cada deles; e uma playlist com os selecionados. Na curadoria, além de Pena Schmidt, estão Alexandre Matias, Roberta Martinelli, Fabiana Batistela, Arthur Fitzgibbon e Daniel Ganja Man.

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